quarta-feira, 20 de julho de 2011

DICIONÁRIO MÉDICO SEGUNDO O MATUTO

            Um agricultor, 42 anos, residente e natural do sítio Tabocas, distrito de Brejo Grande, Santana do Cariri na Chapada do Araripe (Cariri cearense), acomoda-se diante do Jovem médico, recém-formado e chegado da Capital.
            _ Bom dia, dotô?
            _ Bom dia, seu Joaquim, o que o senhor tem?
            _ Bem, dotô. Tenho uma casinha no pé da serra, 2 vaquinha (que tão inté maga), 2 cabrinha e umas galinhazinhas soltas pelo terrêro. Ah! Tem tumbém uma cachorra – a zabelê e 4 fí que tão só o coro e o osso.
            _ Não, seu Joaquim, o que o senhor está sentindo?
            _ Ói, dotô. Na verdade, na verdade tô sentindo vontade de vedê tudo e ir me’ bora.
            Assim começou o diálogo entre o jovem médico e seu Joaquim – cabra sertanejo que visita a cidade só em dia de feira, trabalhador de roça em tempo de inverno e de frente de serviço na seca.
            _  Seu Joaquim, o senhor veio procurar o médico por quê?
             - Bem dotô!
            _ Ói! Vim percurá o sinhô promode num sô mais o mermo. Anda vingano umas maledicência n’eu que to sem agüentá
            Meio desorientado com o vocabulário apresentado pelo agricultor, mas acreditando ter que manter sua postura de doutor, o médico continuou a consulta.
            _ Pois então diga o que é?
            _ Pra cumeçá, to c’uma dô nas pá – bem nas ponta das cruz- descendo no êxo do tronco partindo pros fecho dos quarto. Chegano nas cadêra se espáia pra bacia, descendo pras perna, passando por trás das canela – mermo nas batata da perna- indo inté o rejeito.
Seu Joaquim ainda continuou, não dando chance ao médico interrompê-lo.
            _ Inda tô apresentando um arguêro na menina dos zói que num tem picinêz que dê jeito (inté já recebi um do vereador Zé de Biu e outro de Elizeu – meu cumpade, mas mermo que nada)
            _ Ói,
            _ Tô c’uma pereba na cantarêra que coça que só a mulesta. A guela e a campainha é inchada direto. É um roncado na boca do estambo, um gosto azedo na boca, um aperrei no juízo, as oiça curta.
            _ Seu dotô, o sinhô me imagina que inté na hora de fazê as obrigação é uma peleja da peste. Boto força, fico rochim...prá saí uma coisinha de nada e, tem mais, pôde que num tem cristão que agüente. Na hora de vertê água é ôtro aperrei – o mijo sai de pingo em pingo- parecendo conta de rosário na mão de beata.
            _  Os dotô do Crato já passaro uns caxete – é cada píula que dá medo. Agente sente inté uma miora, más é pôca. E o sinhô, qué que diz?
             A essa altura, o jovem letrado médico, mostrava um certo pânico no olhar, diante do queixoso seu Joaquim. Pouco entendera o que se passava com aquele homem diante de si.
            _ Bem, Vamos solicitar uns exames depois o senhor volta, ok?
             Naquele dia, o Jovem médico viu-se frustrado por não ter sido apresentado, ainda na faculdade, a um certo dicionário médico segundo o matuto.
   
Júlio Lima
Médico Ortopedista/ Traumatologista
Professor


VIVER OU EXISTIR

 
                        Viver não é uma das atividades mais fáceis de realizar. Saber viver, então, nem se fala. Muitas pessoas na realidade apenas existem. Não sabem a que vieram e, sabe de uma coisa? Nem estão preocupadas nesse conteúdo ou não têm consciência que pode haver algo além da simples existência.
                        Viver é muito mais complicado. Requer atributos inatos, que em alguns existentes estão atrofiados pelo desuso, além de atributos adquiridos a cada janeiro vivido.
Poderíamos empiricamente listar como atributos inatos: capacidade para desenvolver a sensibilidade, a gentileza, o perdão, a inteligência emocional para o bom convívio com os demais seres e a natureza, entre outros.
Os atributos adquiridos,ao meu ver, dependem de alguns fatores mais específicos, os quais farão a grande diferença durante a vida do homem, muitas vezes, determinando seu lugar na família, comunidade, sociedade ou até na história. Poderíamos listar: clã de origem, religião de escolha ou imposta, país onde nasceu, momento histórico e por aí vai.
Lembremos que para Jean Jaques Rousseau, o homem nasce bom e é corrompido pela sociedade. Mas quem a constituiu, se não os homens? Se considerarmos as diferentes raças humanas cada uma com características sociais que lhes são peculiares?
Poderíamos imputar a formação das sociedades como as conhecemos hoje à preservação das diferentes raças humanas.
Algumas vezes, a humanidade teve que lutar contra as idéias de Darwin, interpretadas inadequadamente por representantes de algumas nações, onde algumas raças ao invés de terem sido subjugadas bélica e moralmente, poderiam ter sido dizimadas definitivamente pelos mais “fortes e aptos” na luta, não pela sobrevivência, mas pelo poder e riquezas existentes em nosso planeta.
Viver requer bom senso, uso coerente de seu aparelho de julgamento, ética com os pares e com a humanidade e a natureza.
                        O imposto que a vida cobra pela aquisição do aprendizado sobre como viver não é pequeno, porém o investimento que se faz, com certeza ainda vale a pena.
                        A construção das sociedades foi, é muito importante para a evolução organizacional e tecnológica da humanidade; porém, a imposição na forma e no estilo de viver, feita pelo modelo socioeconômico vigente em determinada época, favorece ao desenvolvimento da “matrix” social. Dessa forma, Contribui pouco, nada ou negativamente para a evolução natural dos aspectos emocionais e espirituais dos indivíduos e de como eles podem efetivamente viver.
                        A passagem da infância para fase adulta tira do indivíduo o riso fácil, a espontaneidade, a verdade sem subterfúgios, diminui sua capacidade de recuperação diante das frustrações, de fazer amigos e de mostrar-se confiável e confiante diante do outro.
                        Ser adulto na “matrix” social criada pelo homem é ser refém das exigências, imposições e controle oficial ou do inconsciente coletivo, realizado pelos órgãos ali constituídos e que marcham, muitas vezes, em direção contrária ao crescimento individual.
                        O “corpo” social se faz viril à custa do padecimento da sua unidade celular básica: o homem.
                        Se fizermos um comparativo, mesmo que subjetivamente e sem o rigor do estudo científico milimétrico; entre a evolução econômica, tecnológica, acúmulo de riquezas, organização social e até comunitária, e o crescimento de valores altruístas de solidariedade, gentileza, afeto e ética do ser humano individual ou coletivamente, teremos uma grande impressão, mesmo que subjetiva, de uma considerável diferença exponencial a favor dos primeiros. As riquezas mundiais se multiplicaram, enquanto o homem continua ceifando a vida de um par por motivos banais.
                        Estamos entrando no terceiro milênio e perfazemos mais de seis séculos de hegemonia do pensamento crítico e científico. A idade média, conhecida como idade das trevas foi assim condenada por sua “estagnação” na evolução econômica da humanidade.
                        Não quero e nem posso negar o benefício que é uma expectativa de vida próxima de cem anos, em algumas sociedades, as facilidades de deslocamento e informação, o conforto que hoje gozamos, frutos do raciocínio e rigor metodológico. Não proponho o retorno aos feudos.
                        No entanto, proponho uma discussão: Não estaria na hora de fazermos com que a ciência, hoje preconceituosa, vaidosa e arrogante, buscasse contribuir, não apenas para o crescimento das nações, mas também, para acelerar descobertas sobre formas de garantir que os atributos inatos sejam utilizados por todos  em benefício do todo e do planeta?. Dessa forma o homem deixaria de ser apenas fragmentos descontínuos da sociedade.
                        Não falo de psicologia com explicações técnicas das sensações humanas. Falo de encontrar maneiras que estimulem a gentileza, como um bom dia entre pessoas ao se encontrarem, solidariedade com a dor e dificuldade do outro, do amor franciscano e não do que barganha (se te ofereço, quero em dobro), da ética em casa e no trabalho, da libertação dos preconceitos, aprendendo a conviver bem com as diferenças entre os pares, ou mesmo, com os diferentes.
                        Até quando teremos nações ricas, organizadas e eficientes com pobres homens bárbaros.



Júlio Lima
Professor
Médico ortopedista/traumatologista












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APRENDI COM MINHA MÃE... (adaptação)


... E ninguém morreu e nem ficou cheio de complexo ou problema para enfrentar o
mundo! Hoje, os pais teimam em querer transferir sua responsabilidade de educação e
limite dos filhos à escola ou a psicóloga...se está dando certo? Responda você mesmo a
esta indagação.

A EDUCAÇÃO HOJE EM DIA É BEM DIFERENTE, MAS ACHO QUE NÃO HÁ
NADA ERRADO COM AS BRONCAS e PALMADAS QUE LEVEI!!!!

Minha mãe ensinou-me a VALORIZAR O SORRISO...
- 'ME RESPONDE DE NOVO E EU TE ARREBENTO OS DENTES!'

Minha mãe me ensinou a RETIDÃO.
- 'EU TE AJEITO NEM QUE SEJA NA PANCADA !'

Minha mãe me ensinou LÓGICA E HIERARQUIA...
- 'PORQUE EU DIGO QUE É ASSIM! PONTO FINAL! QUEM É QUE MANDA

AQUI?'

Minha mãe me ensinou o que é MOTIVAÇÃO...

- 'CONTINUA CHORANDO QUE EU VOU TE DAR UMA RAZÃO VERDADEIRA

PARA VC CHORAR!'

Minha mãe me ensinou a CONTRADIÇÃO...

- ' FECHA A BOCA E COME!'

Minha Mãe me ensinou sobre ANTECIPAÇÃO...

- 'ESPERA SÓ ATÉ SEU PAI CHEGAR EM CASA !'

Minha Mãe me ensinou sobre PACIÊNCIA...

- 'CALMA!... QUANDO CHEGARMOS EM CASA VOCÊ VAI VER SÓ...'

Minha Mãe me ensinou a ENFRENTAR OS DESAFIOS...

- 'OLHE PARA MIM! ME RESPONDA QUANDO EU TE FIZER UMA

PERGUNTA!'

Minha Mãe me ensinou sobre RACIOCÍNIO LÓGICO...

- 'SE VOCÊ CAIR DESSA ÁRVORE VAI QUEBRAR O PESCOÇO E EU VOU TE

DAR UMA SURRA!'

Minha Mãe me ensinou MEDICINA...

- 'PÁRA DE FICAR VESGO MENINO! PODE BATER UM VENTO E VOCÊ VAI

FICAR ASSIM PARA SEMPRE .'

Minha Mãe me ensinou sobre o REINO ANIMAL...

- 'SE VOCÊ NÃO COMER ESSAS VERDURAS, OS BICHOS DA SUA BARRIGA

VÃO COMER VOCÊ!'

Minha Mãe me ensinou sobre SEXO...

- '...E COMO VOCÊ ACHA QUE VOCÊ NASCEU?'

Minha Mãe me ensinou sobre GENÉTICA...

- 'VOCÊ É IGUALZINHO AO SEU PAI!'

Minha Mãe me ensinou sobre minhas RAÍZES...

- ' TÁ PENSANDO QUE NASCEU DE FAMÍLIA RICA É?'

Minha Mãe me ensinou sobre a SABEDORIA DE IDADE...

- 'QUANDO VOCÊ TIVER A MINHA IDADE, VOCÊ VAI ENTENDER .'

Minha mãe me ensinou RELIGIÃO...

- 'MELHOR REZAR PARA ESSA MANCHA SAIR DO TAPETE!'

Minha mãe me ensinou o BEIJO DE ESQUIMÓ...

- 'SE RABISCAR DE NOVO, EU ESFREGO SEU NARIZ NA PAREDE!'

Minha mãe me ensinou CONTORCIONISMO...

- 'OLHA SÓ ESSA ORELHA! QUE NOJO!'

Minha mãe me ensinou DETERMINAÇÃO...

- 'VAI FICAR AÍ SENTADO ATÉ COMER TODA COMIDA!'

Minha mãe me ensinou habilidades como VENTRÍLOGO...

- ' NÃO RESMUNGUE! CALA ESSA BOCA E ME DIGA POR QUE É QUE VOCÊ

FEZ ISSO?'

Minha mãe me ensinou a SER OBJETIVO...

- 'EU TE AJEITO NUM TAPA SÓ !'

Minha mãe me ensinou a ESCUTAR...

- 'SE VOCÊ NÃO ABAIXAR O VOLUME, VOU AÍ E QUEBRO ESSE RÁDIO!'

Minha mãe me ensinou a TER GOSTO PELOS ESTUDOS...

- 'SE EU FOR AÍ E VOCÊ NÃO TIVER TERMINADO ESSA LIÇÃO, VOCÊ JÁ

SABE!...'

Minha mãe me ajudou na COORDENAÇÃO MOTORA...

- 'AJEITA AGORA ESSA BAGUNÇA!! PEGA UM POR UM!!'

Minha mãe me ensinou os NÚMEROS...

- 'VOU CONTAR ATÉ DEZ. SE ESSE VASO NÃO APARECER VOCÊ LEVA UMA

SURRA!'

Minha mãe me ensinou sobre a majestosa sabedoria popular...

PASSARINHO QUE COME PEDRA SABE O CU QUE TEM...

VOCÊ VAI VER COM QUANTOS PAUS SE FAZ UMA CANOA...

QUEM NÃO PODE COM O POTE NÃO PEGA NA RODILHA...

DEPOIS NÃO DIGA: AI,AI, AI...SANTO ANTONIO ME ENGANOU...

Muito obrigado, minha Mãe... Paulo Freire e freud tomariam-lhe a benção

terça-feira, 28 de junho de 2011

OS PARADÍGMAS DE UM CHEFE


A palavra chefe deriva do francês chieef, que por sua vez tem sua origem do latim caput,ítis = cabeça, parte superior.
            Muitas são as maneiras pelas quais os chefes são conhecidos: cabeça, cabo, capitão, condutor, diretor, dirigente, general, guia, líder, mentor, principal, e por aí vai...
            Você escolhe ser chefe ou é recrutado a sê-lo? O chefe necessariamente possui a mesma ideologia de sua empresa?
            Características individuais de liderança, organização, conhecimento técnico profundo, empreendedorismo são suficientes para tornar alguém um bom comandante?
            O humor, por exemplo, é necessário a um líder? Muitas vezes, observamos alguns diretores amáveis, leves, bem humorados; outras, observa-se alguns que possuem um “humor” tão afiado quanto um esmeril de pedreira, daqueles que só quem consegue rir de seus comentários é ele e seus comandados puxa-sacos mais próximos (desses falarei em texto futuro – os paradigmas do puxa-saco).
            Há diversas formas de adquirir respeito e motivação para o trabalho pelos comandados: Pela força (tirania, perseguição, intimidação), pelo exemplo (cobra do outro o que ele pratica), pela coerência ( não generaliza, não favorece, não acossa), pela Justiça ( ninguém espera que um chefe seja bom; se não, justo).
            Viver sobre a égide de um tirano dói o corpo e a alma, causa depressão, impotência, hipertensão, diabetes... O sujeito que persegue geralmente o faz no intuito de encobrir, esconder suas limitações e fraquezas; e ainda, sua incompetência, sendo geralmente capacho e subserviente de seu superior.
            Àquele que intimida traz impregnado em seu DNA o gen da covardia.
            Ser trabalhador, gostar do que faz, conhecer o trabalho e seus comandados, ser exigente com coerência, reconhecendo as limitações de cada um, procurando estimular as qualidades individuais; saber posicionar-se com firmeza, com gentileza, com seriedade e com afeto faz brotar nos convives de trabalho um senso de responsabilidade e vontade de acertar. Faz o funcionário sentir-se parte de uma engrenagem que necessita de sua força; ou paciência; ou inteligência; ou sensibilidade; ou destreza. Atribuições pessoais que só gerará bom resultado, caso o trabalho seja realizado em equipe, com valorização de todos, pois não acredito que alguém consiga deter todas àquelas qualidades sozinhas.
            Imaginar um mentor que não possua inteligência emocional deveria ser um absurdo, pois acredito que faz parte das qualidades básicas de um superior. Pena que não é e, mais pena ainda, é que a maioria dos cabeças não sentem essa necessidade para o seu dia-a dia.
            Manter-se coerente não é tarefa fácil. Os vários funcionários de um mesmo setor não produzem de maneira uniforme. A motivação, a criatividade, o esforço, a tolerância, o conhecimento técnico não são iguais e isso deve ser considerado pelo comandante, não para dar privilégios, mas para resgatar, estimular e fortalecer os menos hábeis. De outra forma, colocar o preguiçoso, o indisponível, o limitado no mesmo balaio do esforçado, do paciente, do que tem iniciativa poderá gerar insatisfações e queda na qualidade do trabalho. Cuidado maior se deve ter para não tratar os iguais de forma diferente, gerando injustiças.
            Da mesma forma que nenhum bom funcionário espera que um chefe seja bom; e sim que ele seja justo, cabe ao mentor não esperar ou exigir que o comandado seja submisso, subserviente, sem opiniões próprias.
            Um chefe não pode ter medo da contestação, da sabatina, da contra-argumentação.
            Humildade através do reconhecimento de suas limitações torna o homem sábio e forte.
            Um bom timoneiro não procura glórias individuais. Ele deve reconhecer que seu sucesso é resultado de um trabalho de todos. Querer a glória sozinho minará sua liderança e o tornará em um rei solitário.  

Júlio Lima
Médico/professor

segunda-feira, 27 de junho de 2011

Para começar o dia


SENHOR,
Ajuda- me a escolher a verdade diante dos fortes,
e não escolher mentiras para ganhar o aplauso dos fracos.
se me deres fortuna, não me tire a razão.
se me deres êxito, não me tire a humildade.
se me deres humildade, não me tire a dignidade.
ajuda-me sempre a ver a outra face da moeda. Não me deixe acusar de
traição os demais por não pensar como eu.
ensina-me a amar as pessoas como a ti mesmo e a não julgar-me como aos demais.
Não me deixe cair em orgulho se triunfar,
nem em desespero se fracassar.
mas, lembre-me que o fracasso é a experiência que precede o triunfo.
Mahatma Gandhi – Líder Religioso Indiano

terça-feira, 14 de junho de 2011

Repeitem nossos valores - e cabelos, por Henrrique França

Amigos, faço minhas as palavras de Henrrique França. Comu
   [@RiqueFranca]

               Francisco César Gonçalves é um sertanejo destemido e
sensível. O cara cresceu no burburinho cultural brasileiro-nordestino,
tornou-se um irreverente e talentoso cantor, encantou o mundo com suas
canções e acabou na vida administrativa. Hoje, secretário de Cultura
da Paraíba, Chico César mostra que, apesar das assinaturas e
burocracia necessárias ao cargo que exerce, permanece um dom Quixote
da cultura do Nordeste, sua terra, sua gente, seu valor.


               Negro, de família humilde, sertaneja, fora dos padrões
emburrecidos de “beleza”, Chico tem na palavra sua espada. E com ela
vence batalhas, apesar de fazê-lo diante da impossibilidade de ferir
um ou outro. Esses dias, o nome de Chico César voltou a provocar
reações positivas e negativas, depois que o secretário declarou que
grupos musicais que destoantes da tradição musical nordestina – as
bandas de forró de plástico ou as duplas sertanejas
– não serão
contratados pelo Governo da Paraíba para a programação do São João
local.

               Com a polêmica nos principais sites de notícias da
Paraíba e do Brasil, com seu nome entre os dez assuntos mais
comentados do twitter, Chico César foi vítima e vilão, ganhou mais
respeito por alguns e insultos por outros. E, pasmem, ganhou um bom
número de internautas que declararam sequer conhecer esse “tal Chico
César”! Os argumentos contrários à declaração do cantor se baseiam na
vontade popular: se o povo gosta, dê a ele todo lixo em forma de
canção, dancinhas e gritinhos.

               O argumento é frágil e pouco convincente. Se assim
fosse, que tal ampliarmos a discussão para outras áreas. Se o povo
gosta de fumar, libera o cigarro; se o povo gosta de acelerar, libera
essa besteira de limite de velocidade nas ruas; se há pais que não
acham necessário matricular seus filhos em uma escola (melhor levá-los
para pedir um trocado nos semáforos), deixe que eles, como pais
decidam. Parece exagero? Sim, mas não é. A música é, sim, um
instrumento de mudança social. Aliás, qualquer forma de arte possui
essa capacidade.

               Então, quando eu relego a décimo plano uma música que
nos identifica como povo, que fala a língua do Nordeste, que nos
remete a memórias ancestrais dos nosso pais, avós, que valoriza as
pessoas, as relações, mesmo os embates históricos, as lembranças de
uma trajetória nordestina – seja cantando um pássaro ou um lamento do
homem sertanejo, seja narrando o despertar da adolescência da menina
do interior ou uma disputa engraçada de embolada -, estou lançando
toda essa carga de história aos resíduos memoriais.

               Não, não se trata de alienação ou de direcionamento do
que eu devo ou não ouvir. Trata-se, sim, de respeitar o povo a quem
ele – Chico César – serve. Caso contrário, há quem concorde em pagar
caro por artistas que elevem em suas canções o machismo exacerbado, o
xingamento gratuito, a insinuação de pedofilia, a exposição de
mulheres como pedaços de carne rebolando sobre um palco, sendo
desejadas de forma tão obscena que se torna vergonhoso por se dar em
espaço público, que traz em suas letras refrões do tipo “vem molhar o
meu corpo, quero ver se vai resistir o que tenho aqui”, “o meu bolso é
minha guia, a bebida é a razão”, “eu juro não vou sossegar - se você
não me der, desculpa, eu vou roubar”? Tem mais: “Vai começando na
cabeça/ Vai descendo pro queixinho/ Menina gostosinha, eu sou o seu
neguinho/ Alisando, alisando, esse lindo umbiguinho/ Se você não
aguenta fale assim pra mim: Ai painho, a-a-ai painho.”

               Atenção, críticos e suas metralhadoras giratórias. É
isso que vocês estão defendendo? Não se trata, aqui, simplesmente de
arte. Trata-se de comportamento, respeito, o mínimo de coerência.
Porque quando um “painho” estupra a própria filha ficamos todos
revoltados. Porém, quando um “artista” canta isso, insere uma voz de
criança para cantar “a-a-ai painho” ninguém se constrange ou se
indigna? É isso mesmo? Chico César é um artista que está secretário.
Não cabe aqui avaliar sua atuação administrativa, mas esse é o mesmo
homem que escreveu, na canção-desabafo “Odeio Rodeio”: Me tira a
calma, me fere a alma, me corta o coração. É bom pro mercado de disco
e de gato, laranja e trator / Mas quem corta a cana não pega na grana,
não vê nem a cor.

               Palavras de Chico, como secretário: “Nunca nos passou
pela cabeça proibir ou sugerir a proibição de quaisquer tendências.
Quem quiser tê-los que os pague, apenas isso. São muitas as
distorções, admitamos. Não faz muito tempo vaiaram Sivuca em festa
junina paga com dinheiro público aqui na Paraíba porque ele, já
velhinho, tocava sanfona em vez de teclado e não tinha moças seminuas
dançando em seu palco. Vaias também recebeu Geraldo Azevedo porque ele
cantava Luiz Gonzaga e Jackson do Pandeiro em festa junina financiada
pelo governo aqui na Paraíba, enquanto o público, esperando a dupla
sertaneja, gritava "Zezé cadê você? Eu vim aqui só pra te ver".”

               Dizem que Chico César está sendo intolerante. Talvez
devêssemos nós, como “baluartes” da dignidade, nos colocarmos de forma
a não tolerar mais certas manifestações “culturais” que nos enfiam
goela abaixo valores distorcidos em forma de canções “divertidas”. Não
sou preto na pele, não sou musicalmente talentoso como nosso
secretário de Cultura, mas aproveito alguns poucos fios de cabelo que
agrisalham minha cabeça para cantar com Chico:


Respeitem meus cabelos, brancos
Chegou a hora de falar
Vamos ser francos
Pois quando um preto fala
O branco cala ou deixa a sala
Com veludo nos tamancos.

[Texto publicado na coluna #CotidianaMente, do Jornal A União, em 20/04/2011]

terça-feira, 24 de maio de 2011

No dia de minha morte

           No dia de minha morte despertarei disposto e tranqüilo.
           Tomarei um café da manhã com sabor de infância feliz. Vestirei uma roupa leve e sem camisa. Estará chovendo. Darei a mão à chuva e dançarei consigo.
          A água que alimenta, também equilibrar-me-á os humores, removerá a tristeza, eliminará o restim de melancolia, os nãos rejeitados, os sins infelizes, os por quês não explicados.
          No dia de minha morte viajarei pelas mais belas paisagens terrestres e planetárias; comerei sem preocupação com o açúcar ou o colesterol, e cantarolarei rouco, desafinado e firme... em voz alta, claro!
          A água que do céu viaja trará consigo a força antípoda da energia do fogo que me faz queimar, arder de satisfação por ter vivido, sentido e encontrado com quem convivi, por quem senti e compartilhei fluídos quânticos de prazer e/ou idéias, conduzindo-me a excelência de ser homem que faz de seus medos, a arma mais combativa e eficaz, na caminhada terrena.
           Esse fogo que tanto me aquece o coração, por tantas e tantas vezes, conduzindo a lançar-me sem escrúpulos moralistas, ao sabor do não, bem aceito, do sim, certeiro, sem explicações vis.
          Esse fogo em mim aceso pelo vento norte, vento sul, vento de todas as direções e que me aproxima dos pássaros, fomentando diuturnamente em mim, vivendo e degustando o sentimento que mais amo e venero – a liberdade!
          No dia que eu morrer, quero cinzas de mim. As cinzas? Que sejam distribuídas nos banquetes dos corruptos, insensatos e maus de coração tirando-lhes a risada falsa, a alegria maldita, a volúpia infame.
          Noutra parte, entreguem-lhes nos braços do mar, no colo de Iemanjá onde repousarei.
         O tiquim que sobrar, juntem-nas as sementes de flanboyants e as semeiem nos solo de minha terra querida, perto de minha gente e dos meus.
         No dia de minha morte, quero festa. Sanfona, zabumba e triângulo tiniiiinndo.
         Aos presentes, bolo de puba, milho e batata doce. Para não engasgar, suco de qualquer coisa.
         Não deixem faltar cachaça da branca e da amarela, esta última, curtida no carvalho.
         Aos amigos de vida, peço apenas um brinde com os dizeres: - Pense n’um caba arretado!!!!
        A morte é a primeira gota de vida, é o passo seguinte, é a renovação diária, é o que afasta da ignorância, da estagnação e da inércia; é aprendizado, é maturidade, é sabedoria.
       A morte é quem dirige o belo espetáculo da vida.

Júlio Lima
Médico/Professor

domingo, 22 de maio de 2011

EU E DEUS

EU E DEUS




Amar a Deus
É fidelidade
É feição
É coragem
É ação
É sorriso


Acreditar em Deus
É estado de vigília
É fazer por onde
É vencer-se
É ir além
É permanecer forte


Seguir a Deus
É enxergar além de um palmo
É viver com ética em tempo integral
É arregaçar as mangas para labuta
É ter o pé no chão


Ter Deus
É compartilhar conhecimento
É ter a justiça como norte
É ter o coração firme e forte
É oferecer o verbo, o ombro
É enxergar-se num irmão


Estar com Deus
É ter paz

Júlio Lima ( agosto/09)

quinta-feira, 21 de abril de 2011

O ser social

"A despeito de suas muitas liberdades aparentes, nossa cultura exige níveis rigorosos de adequação pessoal. Somos ensinados que, para sermos bem sucedidos, devemos estar constantemente conectados, ser altamente competitivos e compatíveis com o ponto de vista empresarial - e devemos querer mais bens, mais status e mais felicidade. No caso da discordância, as opções podem parecer muito alternativas, como baixos salários, status inferior e viver numa comuna lamacenta"Chega de despedício - John Naish



domingo, 17 de abril de 2011

Cordel para Bial

Foi com alegria e satisfação
Nesse Domingo chuvoso
que vi um desabafo como uma canção
de um poeta bom e virtuso

Ele falou pra Bial
Como quem quer fazer apodrecer
uma erva daninha do mau
como essa plantada, o tal de  BBB

Falo do poeta baiano Antonio Barreto
preoculpado com a qualidade do que vemos
Descreve em seu pequeno livreto
o desabafo que queremos.

Júlio Lima

CORDEL PARA BIAL
Autor: Antonio Barreto,
Cordelista natural de Santa Bárbara-BA, residente em Salvador.


Curtir o Pedro Bial
E sentir tanta alegria
É sinal de que você
O mau-gosto aprecia
Dá valor ao que é banal
É preguiçoso mental
E adora baixaria.

Há muito tempo não vejo
Um programa tão ‘fuleiro’
Produzido pela Globo
Visando Ibope e dinheiro
Que além de alienar
Vai por certo atrofiar
A mente do brasileiro.

Me refiro ao brasileiro
Que está em formação
E precisa evoluir
Através da Educação
Mas se torna um refém
Iletrado, ‘zé-ninguém’
Um escravo da ilusão.

Em frente à televisão
Lá está toda a família
Longe da realidade
Onde a bobagem fervilha
Não sabendo essa gente
Desprovida e inocente
Desta enorme ‘armadilha’.

Cuidado, Pedro Bial
Chega de esculhambação
Respeite o trabalhador
Dessa sofrida Nação
Deixe de chamar de heróis
Essas girls e esses boys
Que têm cara de bundão.

O seu pai e a sua mãe,
Querido Pedro Bial,
São verdadeiros heróis
E merecem nosso aval
Pois tiveram que lutar
Pra manter e te educar
Com esforço especial.

Muitos já se sentem mal
Com seu discurso vazio.
Pessoas inteligentes
Se enchem de calafrio
Porque quando você fala
A sua palavra é bala
A ferir o nosso brio.

Um país como Brasil
Carente de educação
Precisa de gente grande
Para dar boa lição
Mas você na rede Globo
Faz esse papel de bobo
Enganando a Nação.

Respeite, Pedro Bienal
Nosso povo brasileiro
Que acorda de madrugada
E trabalha o dia inteiro
Dar muito duro, anda rouco
Paga impostos, ganha pouco:
Povo HERÓI, povo guerreiro.

Enquanto a sociedade
Neste momento atual
Se preocupa com a crise
Econômica e social
Você precisa entender
Que queremos aprender
Algo sério – não banal.

Esse programa da Globo
Vem nos mostrar sem engano
Que tudo que ali ocorre
Parece um zoológico humano
Onde impera a esperteza
A malandragem, a baixeza:
Um cenário sub-humano.

A moral e a inteligência
Não são mais valorizadas.
Os “heróis” protagonizam
Um mundo de palhaçadas
Sem critério e sem ética
Em que vaidade e estética
São muito mais que louvadas.

Não se vê força poética
Nem projeto educativo.
Um mar de vulgaridade
Já tornou-se imperativo.
O que se vê realmente
É um programa deprimente
Sem nenhum objetivo.

Talvez haja objetivo
“professor”, Pedro Bial
O que vocês tão querendo
É injetar o banal
Deseducando o Brasil
Nesse Big Brother vil
De lavagem cerebral.

Isso é um desserviço
Mal exemplo à juventude
Que precisa de esperança
Educação e atitude
Porém a mediocridade
Unida à banalidade
Faz com que ninguém estude.

É grande o constrangimento
De pessoas confinadas
Num espaço luxuoso
Curtindo todas baladas:
Corpos “belos” na piscina
A gastar adrenalina:
Nesse mar de palhaçadas.

Se a intenção da Globo
É de nos “emburrecer”
Deixando o povo demente
Refém do seu poder:
Pois saiba que a exceção
(Amantes da educação)
Vai contestar a valer.

A você, Pedro Bial
Um mercador da ilusão
Junto a poderosa Globo
Que conduz nossa Nação
Eu lhe peço esse favor:
Reflita no seu labor
E escute seu coração.

E vocês caros irmãos
Que estão nessa cegueira
Não façam mais ligações
Apoiando essa besteira.
Não deem sua grana à Globo
Isso é papel de bobo:
Fujam dessa baboseira.

E quando chegar ao fim
Desse Big Brother vil
Que em nada contribui
Para o povo varonil
Ninguém vai sentir saudade:
Quem lucra é a sociedade
Do nosso querido Brasil.

E saiba, caro leitor
Que nós somos os culpados
Porque sai do nosso bolso
Esses milhões desejados
Que são ligações diárias
Bastante desnecessárias
Pra esses desocupados.

A loja do BBB
Vendendo só porcaria
Enganando muita gente
Que logo se contagia
Com tanta futilidade
Um mar de vulgaridade
Que nunca terá valia.

Chega de vulgaridade
E apelo sexual.
Não somos só futebol,
baixaria e carnaval.
Queremos Educação
E também evolução
No mundo espiritual.

Cadê a cidadania
Dos nossos educadores
Dos alunos, dos políticos
Poetas, trabalhadores?
Seremos sempre enganados
e vamos ficar calados
diante de enganadores?

Barreto termina assim
Alertando ao Bial:
Reveja logo esse equívoco
Reaja à força do mal…
Eleve o seu coração
Tomando uma decisão
Ou então: siga, animal…

FIM

Salvador, 20 de fevereiro de 2011


terça-feira, 22 de março de 2011

Fraturas da perna e do pé




Traumas do Joelho




Fraturas do Quadril




segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

O grande não

Muitas crianças vivem a síndrome do “menino bom”. Educado, compreensivo, obediente, etc. Sempre disposto a dizer sim e ajudar a quem necessita. Ser “menino bom tem um preço. Relendo uma revista antiga no balaio da sala, revi ou vi um texto assinado por Liane Alves – Jornalista. Esse texto trago agora para reflexão de todos. O juízo que fiz dele? Deixarei que tirem suas conclusões. A idéia é levantar a questão filosófica e religiosa e sua conseqüência individual e social sobre o assunto. Júlio Lima

O grande não
Ter firmeza de atitude e saber negar é uma arte que pode transformar sua vida. Descubra por que é legal não ser legal o tempo inteiro
texto Liane Alves Revista Simples Nov 08.

      Fuinha era um moço bonzinho – os nomes dos boas-praças quase sempre passam para o diminutivo. Ele poderia ser descrito como um amor de pessoa. Dava carona para quem precisasse, agüentava as brincadeiras dos jornalistas veteranos, aceitava fazer as piores matérias sem reclamar e envergonhava-se calado diante da gozação geral em cima do seu apelido. Um dia, Fuinha foi tomado por um acesso de raiva em plena redação. Roxo como uma beterraba, meteu o pé na mesa do redator-chefe e começou a gritar com todo mundo: “Não quero que me chamem mais de Fuinha! Eu tenho nome e sobrenome. Não sou uma coisa que pode ser chutada de lá para cá. Chega, cheeeega!” Enquanto esbravejava, arremessava no chão revistas e jornais que estavam em cima das mesas. Um espetáculo. Todo mundo o olhava de boca aberta como um maluco em potencial. Menos eu. Já tinha tido reação semelhante em um hospital público depois de ir quatro vezes lá para marcar um exame. Era a fúria diante do desrespeito contínuo. E também pela própria incapacidade de recusar uma situação espinhosa desde o princípio e de ter dito não no momento justo e preciso.
      É bem provável que você já tenha visto o Fuinha na televisão. Mas hoje ele só atende por seu extenso nome completo e é um dos melhores repórteres da TV – poucas pessoas sabem que ele já teve um apelido tão bobo. O que essa história mostra é que todo bonzinho tem seu dia de basta. Seu dia de não, não quero, não, não gosto, não, não suporto mais ser “legal”. Mas o ideal é que a situação não chegue a esse ponto crítico e que, pouco a pouco, o ato de se negar tome seu lugar necessário na vida. Só resta saber como.
      O medo da rejeição é crucial na vida e está sempre a nos rondar, como um fantasma
O grande medo       Todo mundo tem medo de dizer não. Algumas pessoas têm mais medo que as outras. Mas por que será que temos tanto medo do conflito que pode ser causado pelo não? Segundo Corinna Shabbel (psicoterapeuta) é preciosa: quase todas as pessoas que estão prestes a dizer não fantasiam uma série de reações negativas por parte do outro. Isto é, a pessoa teme que ele fique bravo, agressivo ou, então, magoado, triste e ofendido. “Esse olhar negativo sobre as conseqüências do não tira a força e o peso da recusa. Esses fantasmas geralmente não passam da mais pura imaginação. Se a gente diz um não limpo, coerente com nossos sentimentos, e o dizemos com clareza, é bem provável que o outro acate sem conflitos ou ofensas”, diz. A psicóloga aconselha, portanto, a refletir bastante sobre nossos fantasmas e fantasias, conhecê-los de perto e tentar identificar quando eles estão se aproximando para turvar a realidade.
      Pois o medo da rejeição é crucial e está sempre a nos rondar, como um fantasma. Claro, imaginamos perder o outro por causa de uma negação. “Isso acontece porque não conseguimos fazer as pazes com o não, fortalecê-lo, saber que ele é necessário na vida e que sem ele não se pode viver. Para nós, ele não é natural – por isso o medo superdimensionado do efeito que ele pode causar no outro”, diz Corinna Shabbel.

Ser legal não é legal       Para os psicoterapeutas americanos Jo Ellen Gryzb e Robin Chandler, autores do livro The Nice Factor – The Art of Saying No (numa tradução livre, “O fator gentileza – A Arte de Dizer Não”, sem edição brasileira), a dificuldade para negar surge porque, no fundo, achamos errado não ser legal. O inesperado livro vai na contracorrente da auto-ajuda, porque não ensina a melhorar a si mesmo, mas a “piorar” e, assim, ser mais verdadeiro. Basicamente, dá o passo-a-passo de como abdicar de ser o boa-praça de plantão, sempre solícito, presente e gentil, para transformá-lo em alguém mais consciente de si mesmo e dos outros, inclusive dos seus abusos. Os dois decidiram escrever o livro quando se encontraram numa segunda-feira de manhã e descobriram que Jo Ellen havia passado uma noite em claro por não saber como expulsar hóspedes indesejáveis de casa e Robin, exausto por bancar o cicerone de parentes que visitavam a família. Antes de expressar o que pensavam, eram tidos como gente muito, muito legal.
      Além do risco de não nos deixar mais ser vistos como “legais”, o não também implica outros perigos. É quando as perdas podem ser reais e não apenas imaginárias. “Nessa circunstância, podemos optar por um sim, mas com limites. Posso aceitar algo, mas só por um período curto de tempo, por exemplo. É um sim condicional”, afirma Corinna. Adorei o sim com limites. Tanto que vários dos meus sins daquele momento em diante já vinham com um limite dentro. Acho que fiquei meio chata por um período com meus amigos, mas foi uma bela transição em direção ao não.
      Mas também podemos assumir os riscos, por exemplo, .não aceitando desmandos do chefe e arriscar-se a ser demitido. Mas onde buscar a força necessária para esse não puro e simples, que não teme riscos?
      Essa é uma outra etapa.
Gentileza e medo       Todo limite precisa de uma potência, de uma força para ser exercido. Um não fraco, frouxo, sem energia, seja na voz, seja na emoção, não dá resultado. E onde podemos encontrar esse vigor? Vamos voltar lá para o comecinho de nossa existência. Já nos primeiros dias de vida, uma inteligência instintiva se dava conta de que nascemos inteiramente dependentes. Levamos anos e anos sendo alimentados, cuidados e educados até alcançar um pouco de autonomia. Portanto, lá no fundo de nossa mente há uma luz de néon que pisca com os dizeres “sou incapaz de sobreviver sozinho”. “Dependo de alguém, e se perder esse vínculo que me mantém vivo – no caso, minha mãe – posso morrer.” Para continuarmos com esse vínculo, somos capazes de fazer tudo. Inclusive sempre dizer sim e obedecer, se for necessário.
      “Manter vínculos é a mais fundamental estratégia de sobrevivência do começo da vida”, diz Denise Passos, terapeuta somática e pesquisadora do Laboratório do Pensamento Formativo, que segue a linha do psicólogo Stanley Keleman. De acordo com essa linha da psicologia (que analisa o poder de várias influências em nossas respostas comportamentais), temos dificuldade em dizer não porque morremos de pavor de perder nossos vínculos e ter nossa sobrevivência ameaçada. É um medo inconsciente e ancestral. Uma criança que tem pais agressivos, por exemplo, e que por temperamento é mais doce, aprende rapidamente que pode ser mais protegida ou aceita quando é boazinha. E ser boazinha e prematuramente madura é uma estratégia eficaz de sobrevivência. “O problema não é ser doce e gentil, o problema é só agir assim, como se não houvesse outra possibilidade diante das situações”, diz Denise.
      Um dia crescemos, nos tornamos seres autônomos e não mais tão dependentes dos vínculos. Mas a frase de néon pode continuar a piscar no cérebro: somos fracos, dependentes, e precisamos ceder para sobreviver. Como o patinho feio que virou cisne, não percebemos que nos tornamos fortes e adultos. E que não dependemos tanto dos vínculos, a ponto de aceitar e cultivar até aqueles que podem nos causar muita dor e sofrimento na vida.

A força do treino       Para Stanley Keleman, temos três heranças: a biológica, a genética e a cultural. A biológica revela que o ser humano tem a agressividade dentro de si. A genética dá forma a essa agressividade, que depende do nosso temperamento. Portanto, ela a individualiza: podemos ser mais assertivos, ou mais passivos e obedientes, por natureza. A terceira vertente, social e cultural, vai condicionar mais ainda a maneira de expressá-la. Uma pessoa que diz sim quando queria dizer não vai chegar a um ponto em que seu cérebro emocional (o sistema límbico) e o racional (o córtex cerebral) vão entrar em colapso.Vai responder com fúria, com seu cérebro instintivo (reptiliano) ligado à agressividade.
     
 E como sair dessa?       Treinando pequenos nãos, só para sentir nossa força, em situações menos importantes. E, como numa ginástica, torná-lo forte e resistente. “É preciso um corpo mais tônico, uma emoção mais clara, um raciocínio mais eficaz”, diz Denise. Aprender que crescemos, que não somos mais crianças e que não precisamos nos sentir ameaçados como elas é um bom começo. Perceber que assumir a força, o próprio poder, não significa ser agressivo.

Aventuras e oportunidades       O não pode não ser necessariamente negativo. Já pensou nisso? Na verdade, ele pode se revelar como um portão escancarado para um mundo de aventuras e bem-aventuranças. Ele pode ser, ao contrário, imensamente positivo, pois significa uma recusa ao que é proposto, seja por uma pessoa, seja por uma circunstância, e uma abertura a novas situações. Nas culturas tribais, como a dos índios norteamericanos, o não faz parte do vocabulário de um guerreiro, pois é capaz de expressar, tanto quanto o sim, o que seu coração diz. Segundo o mitólogo Joseph Campbell, nas culturas indígenas os mitos geralmente se apresentam com dois motivos principais: ou a bela moça se recusa a casar com seus pretendentes, dizendo não, não e não a cada um que aparece, ou o guerreiro infringe um limite. Se, por exemplo, a região ao norte é a proibida pela tribo pelos mais variados motivos, sem dúvida é para lá, contrariando tudo e todos, que ele se dirige. Sua aventura começa ao se negar a aceitar o não dos outros.
      A cada recusa de pretendentes ou ultrapassagem de um limite, você se coloca num nível mais alto, de perigo maior. A questão é: você está preparado para esse desafio? “A aventura vai ser a recompensa, mas ela é necessariamente perigosa, incluindo possibilidades, tanto positivas quanto negativas, umas e outras fora de controle”, afirma Campbell. Afinal, se você for imprudente demais, pode perder a vida.
      Mas há uma grande vantagem nessa escolha. “Estaremos seguindo nosso próprio caminho e não mais o caminho do papai e da mamãe. Com isso estamos sem proteção, num campo de poderes superiores aos que conhecemos”, diz Campbell. É para isso que as histórias e os mitos existem. De certa forma, eles nos preparam para o que há de vir depois da recusa. Isto é, o não abre portas para riscos, mudança, conflitos, aventuras e realidades diferentes. O mestre tibetano Chögyam Trungpa falava desse não visceral como o “BIG NO”, o grande não, aquele que é capaz de transformar vidas e destinos. É por isso, também, que o tememos. Mas a mitologia insiste que o caminho do coração é protegido por forças que não conhecemos, que não é preciso temer demais e que nele desenvolveremos novas habilidades e valores. Uma coisa é certa: depois desse não frontal diante da realidade, nada do que foi será do mesmo do jeito que já foi um dia.

Fizemos uma seleção de dicas a partir de livros que falam sobre a melhor maneira de sustentar uma negação. Aqui estão alguns dos conselhos básicos:

. Ser muito legal pode não ser legal. Experimente ser egoísta de vez em quando.
. Se discordar, discorde logo de cara, no começo da conversa
. O não precisa ter força. Boa alimentação, exercícios vocais e vitalidade auxiliam.
. Se não tiver certeza do seu sim, enrole. Ou peça tempo para pensar.
. Não sorria quando estiver aponto de explodir. Aprenda a fechar a cara.
. Mude de opinião quantas vezes quiser.
. Diga como se sente e não acuse o outro, colocando-o na defensiva.
. Não abra muito espaço para contra-argumentos. Reafirme o seu não.
. A negação precisa ser firme. Mas não precisa ser agressiva
. Imagine sempre que tudo vai dar certo. Costuma funcionar.


LIVROS
O Livro do Não, Susan Newman, Cultrix