sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

Desenvolvimento para que?


Quase concomitantemente, vejo duas notícias que me chamaram a atenção nessa semana que se passou: Mais um massacre de civis inocentes, na maioria crianças indefesas, nos Estados Unidos da América, por um louco fortemente armado e o nordestino é o povo mais feliz no Brasil. Se o Nordeste Brasileiro fosse um país estaria entre os dez mais felizes do mundo.
Esses fatos podem nos levar a várias reflexões, de toda e qualquer ordem. Como gosto muito de geopolítica, economia e relações humanas, trilharei esse caminho.
Observamos uma perseguição doentia dos países pelos indicadores de crescimento econômico, receio de recessão, medo de cair no “ranking” dos mais bem sucedidos e corrida frenética, patética e patológica por aumento da produtividade em todos os setores.
As cidades (principalmente as do continente americano e asiático) buscam cada vez mais crescimento e progresso.  Vende-nos a ideia que felicidade é diretamente proporcional à posição que assumimos no grupo social que convivemos, nossa conta bancária, quantidade de metal que possuímos, grifes que vestimos, automóveis que usamos, ambientes que frequentamos.
Imagino, no entanto, que está tudo errado. O que era para ser, simplesmente não é. Essa conta matemática não fecha. Venderam e compramos a mentira no que se refere ao progresso e poder aquisitivo trazer felicidade.
Se assim fosse, não era para ocorrer suicídios em demasia no Japão e países nórdicos, bandidos sem causa nos EUA que mata e morre por causa nenhuma, infelicidade e terror em São Paulo, maior e mais rica metrópole brasileira.
Pergunto-me que ganho teve o cidadão comum das grandes cidades com seus crescimentos desordenados e chegada do progresso? No Nordeste, o que diriam os filhos de Fortaleza, Recife e Salvador, por exemplo.
Questiono-me mais ainda por que cidades como João Pessoa, Natal e Aracajú estão caminhando para o mesmo destino? Já que encontrarão em um futuro muito próximo a mesma dificuldade de mobilidade com trânsito insano lento e violento, favelização dos morros e encostas, aumento do índice de criminalidade, pedintes e miseráveis em todos os semáforos, aumento do custo de vida, maior distanciamento entre a residência e o trabalho ou estudo, menor tempo para dedicar-se aos seus, desvalorização dos produtos locais e regionais em favor dos importados de menor qualidade, degradação das relações pessoais que passam a serem impessoais e burocráticas demais, burocratização crescente dos serviços públicos, verticalização dos bairros jogando o cidadão comum para as periferias, destruição, desertificação e violência das regiões centrais.
Na Europa, a maioria das cidades possui porte mediano e há uma preocupação local para deter a expansão predatória que certamente desaguaria na perda da qualidade de vida. Sua viabilidade econômica é garantida na medida em que descobre sua principal vocação (fomento de pesquisa e tecnologia, gastronomia e turismo, industrial, etc) e se dedica a ela de forma sustentável.
No entanto, assistimos atualmente essa mesma Europa enfrentar uma das maiores crises de sua história. Atribuímos, parte desse sufoco enfrentado pelo velho continente ao crescimento de países que, juntamente com os Estados Unidos, impõem uma rotina acelerada de trabalho, priorizando a produção de bens de consumo duráveis e/ou descartáveis e de serviços com extensa carga horária de trabalho que leva a degradação do material humano furtando-lhe os melhores e mais saudáveis anos de sua vida.
Óbvio que queremos progresso e desenvolvimento, no entanto, elas não podem vir à custa da saúde e da vida de nosso povo. Estamos fazendo o país crescer e morrendo a cada dia de solidão, desapego, indiferença com os demais, doenças laborais e depressão.
O ritmo de produção nos parques industriais e a competitividade no mundo corporativo nas empresas dos países com crescimento acelerado têm aumentado proporcionalmente ao número de doenças e doentes ocupacionais e psicossociais. Há uma tentativa obscena de mecanização do homem. Nunca o homem foi tão lobo do homem como nesse nosso tempo.
Estamos com nossas vidas entregues nas mãos de grandes organizações corporativas, muitas delas europeias inclusive, que impondo ao mundo o modelo de economia canibal, principalmente nos países ditos em desenvolvimento, se veem diante e vítima do monstro por eles criado. Ganha mais quem especula, ou seja, o feitiço recai sobre o feiticeiro.
No entanto, não creio que a perda de direitos trabalhistas e arrocho salarial e fiscal sobre a população europeia seja a solução para o problema que eles mesmos criaram. Temos que fazer a hora e aproveitarmos a oportunidade para ao invés de apenas assistirmos a agonia do outro lado do atlântico, combater esse modelo de política e economia imposto ao mundo, aonde o ser humano é o maior perdedor. Não só garantir a manutenção dos direitos e desenvolvimento sustentável para eles, assim como, fazer com que essa conquista seja compartilhada com os filhos dos demais continentes.
Os países asiáticos com sua disciplina cega se ergueram como verdadeiros dragões e agora lançam fogo para todo o planeta fomentando juntamente com os Estados Unidos, a concepção de grandes metrópoles como símbolo de crescimento e virilidade econômica.
Nessa guerra monetária e modelo desenvolvimentista de megacidades e aglomerados humanos perde o cidadão comum. Este ver sua liberdade subtraída, passa a residir em celas gradeadas e portões altos ou deixam o chão e trepam-se em prédios esteticamente bonitos e pouco confortáveis. Verticalizam-se inclusive as relações, cada vez mais educadas, formais e pouco humanas.
Você então diria: E o nordestino aonde se encaixa nesse contexto?
O nordestino é um povo que trás em sua constituição genética, o gen da resistência. Mesmo com o que foi feito com Recife, salvador e Fortaleza e querem fazer com outras cidades. Esse povo, mesmo assim, luta e se nega a abrir mão de sua alegria, de sua força mansa, de sua visão e crença do que é felicidade e do que necessita para encontrar-se com ela e dela ser companhia.
No Nordeste, o sol aquece os corações derretendo a frieza, o gelo dos modelos americanos, europeus e asiáticos de enxergarem e viverem a vida aonde o lucro, a mais valia e a baixa temperatura das relações humanas impera. Muita cordialidade e muito distanciamento entre os homens.
 O Nordeste brasileiro estampa para o mundo que nem todo rico é necessariamente normal ou feliz. Que o trabalho de sol á sol carece de festança à luz da lua.
Nesse canto brasileiro encontra-se beleza no que parece feio, luz aonde parece escuridão. Um povo que consegue rir até do próprio sofrimento sem, no entanto, sucumbir.
A burocratização das relações humanas e o desvirtuamento de valores com hipertrofia das questões materiais em detrimento do bem-estar social e humano cria monstros solitários e homicidas que matam e morrem por nada.
Júlio Lima
Médico/ Professor

Um comentário:

  1. Perfeito o texto! O nosso Pais também possui farta evidencia que distribuição de renda sem educação serve também para aumentar índices de acidentes de transito, alcoolismo e homicídio. Estamos a 16 anos dormindo no que diz respeito a educação, e creio que quando acordemos estaremos numa ressaca de estádios e obras inúteis que nada melhoraram de fato a nossa vida. Manoel Luís Neto

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